Resenha: A Caçada – Andrew Fukuda

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Gene é diferente dos outros. Ele não tem a força e agilidade de seus colegas da escola, é imune à luz do sol e não sente uma sede insaciável por sangue. Gene é um “eper”, um dos últimos humanos do planeta, e vive disfarçado no meio das pessoas normais. Ele usa presas falsas, raspa todos os pelos do corpo, faz o possível para esconder seu cheiro e jamais abandona sua máscara. Sabe que não deve chamar a atenção em um mundo em que um pequeno deslize pode ser fatal. Mesmo vivendo sozinho há anos, Gene ainda escuta as palavras de advertência de seu pai – Não faça amigos; não pegue no sono durante a aula; não pigarreie; não gabarite as provas, embora sejam um insulto à sua inteligência. Não durma na casa de colegas; não cantarole nem assobie. E ainda; Nunca esqueça quem você é. Ele leva sua vida de acordo com essas regras, determinado a sobreviver. Mas a frágil segurança de Gene é ameaçada por uma terrível surpresa; a Caçada Eper. Ele precisa escolher entre ser o caçador ou a caça. Não há escapatória – e qualquer erro significa a morte certa.

“A Caçada” é o livro de estreia do autor Andrew Fukuda. Foi lançado ano passado aqui pela Intrínseca, com umas das artes de capa mais bonitas da editora. O livro compõe a trilogia “The Hunt”. O segundo livro “The Prey” e o último “The Trap” já foi lançado no exterior.

A distopia conta a história de Gene – ou H6, que era sua designação na escola – mas só ficamos conhecendo o nome da personagem lá pelo meio do livro. Na sociedade em que ele vive, os humanos são uma espécie em extinção e o mundo é povoado por vampiros, apesar dessa denominação não ser citada em nenhum momento. Gene foi criado pelo pai para se camuflar e sobreviver. Ele cresceu com um grupo de regras a serem seguidas – como não chorar ou dormir em público. Antes de ir à escola, ele deve colocar presas falsas, depilar todos os pelos do corpo, não demonstrar expressões e se manter invisível. Ele passa a vida seguindo essas regras, até o ponto em que isso se torna parte de quem ele é.

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Quando comecei a ler o livro, foi um pouco estranho me acostumar com as “pessoas” – vampiros – descritas nele. Em alguns aspectos, são bem clichês: não toleram o sol, acabam derretendo em poças de pus; bem Tarantino. Obviamente, bebem sangue, mas como os “epers” – assim são chamados os humanos – estão em extinção, a maioria – a não ser os mais importantes socialmente –, consomem carnes sintéticas bem sangrentas. Algumas características são mais inusitadas, como o fato de não possuírem pelos corporais e a ausência de expressões. Eles acabam substituindo isso por outros gestos, como coçar o pulso quando estão se  divertindo e esfregar as orelhas ao invés de abraçar. É um pouco complicado não estranhar essas peculiaridades; pelos menos no começo do livro, isso me incomodou muito, mas com o tempo acabei ignorando.

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-Isso foi divertido.- eles diz – Gostei.
Ele coça o pulso mais rápido, de maneira mais evidente, e mais alunos fazem o mesmo. Ouço o som de unhas arranhando a pele.
Eu me junto a eles, coço os pulsos com minhas unhas compridas, mas odeio.
Porque meus pulsos são defeituosos. Não os sinto coçar quando acho algo engraçado. Meu instinto natural é sorrir ( aquele negócio de alargar a boca, expondo os dentes.) E não coçar os pulsos. Tenho terminações nervosas sensíveis alí, e não tem a menor graça.

Um dos aspectos que me incomodou bastante também foi a hipocrisia geral dos personagens. Por um lado, há a crença total de que os “epers” são animais incivilizados e burros, ao contrário das “pessoas”; sendo que a maioria da população parece achar que babar e ter sangue escorrendo pelo queixo é muito normal. Até mesmo Gene tem seus momentos, menosprezando a sua própria espécie e se colocando acima por ter crescido à parte deles. Aliás, foi muito difícil gostar dele. Não que ele seja mal; Gene é um good guy, mesmo tendo seus momentos esnobes, mas como protagonista, ele foi bem fraco. Na verdade, acho que o livro poderia ter sido narrado por outra personagem –Julia Brasa –, pois ia fazer a primeira parte fluir muito mais facilmente.

Só anos depois, em um pátio de escola à luz cinzenta e sombria da noite, vi aquele brilho vermelho de novo. Era a cor do cabelo dela, da garota que eu nunca tinha visto antes,mas não conseguia parar de olhar. Quando ela se virou pra mim, do outro lado do pátio,com tantos alunos entre nós, nossos olhos se encontraram, e eu me lembrei daquela brasa vermelha nas cinzas escuras como o sol de julho.
A designação dela é Julia Brasa, eu pensei.

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Apesar do começo monótono e bem estranho, a partir da metade as coisas começam a se desenvolver mais rapidamente. Tanto que boa parte dos acontecimentos ocorre no final do livro. Gene começa a ter uns momentos e parecer mais como o protagonista que deveria ser, mesmo bem atrasado. Também temos mais cenas de ação; algumas até fizeram meu coração correr uma maratona. Resumindo: apesar dos aspectos nojentos e de todos os personagens terem sérios problemas de personalidade, foi um bom livro. Foi como esses filmes de terror bem “trash”, com efeitos bizarros e uma história fraca, mas que acaba caindo no gosto popular. Temos grandes pontas para a continuação. Digo, grandes mesmo! Eu estou agoniada pra saber o que aconteceu com Julie e o mistério do Cientista. Eu só espero que Fukuda aproveite melhor o ambiente no próximo livro e explore um pouco mais as outros personagens. No fim, se eu tiver que dar uma nota de 1 a 6, daria um 3 raspando, mas com potencial de aumento dependendo da continuação.

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